Retiro de ayahuasca virou assunto de roda de conversa, de podcast e de anúncio em rede social. Este texto não é convite nem propaganda: é uma lista de checagens de segurança.
Se você já está decidido, ela serve para separar quem leva o assunto a sério de quem só leva o seu Pix. Se ainda está em dúvida, serve para decidir com calma, inclusive decidir não ir.
Antes de tudo, um aviso que não cabe em nota de rodapé. Ayahuasca não substitui tratamento de saúde, e quem tem sintomas de depressão, ansiedade ou qualquer outro quadro deve procurar médico, psicólogo ou psiquiatra.

1. O grupo segue a regra do CONAD, ou só usa o nome dela
No Brasil, o uso religioso da ayahuasca tem regra escrita. É a Resolução nº 1, de 25 de janeiro de 2010, do Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas (CONAD), publicada no Diário Oficial da União de 26 de janeiro de 2010, Seção 1, páginas 57 a 59.
A resolução adota os princípios do Grupo Multidisciplinar de Trabalho. O primeiro diz que o uso é restrito a rituais religiosos, em locais autorizados pelas entidades, e vedado com substâncias psicoativas ilícitas.
O segundo princípio veda a comercialização e qualquer vantagem a título de pagamento pelo consumo. Ficam ressalvadas as contribuições destinadas à manutenção e ao funcionamento de cada entidade.
O texto também recomenda que as entidades evitem a propaganda da ayahuasca e o oferecimento de pacotes turísticos associados à propaganda dos efeitos do chá. Na conclusão, lista como uso inadequado o comércio, a exploração turística, a propaganda e o curandeirismo.
Sobre terapia, o documento é direto. Considera inadequada a atividade terapêutica privativa de profissão regulamentada sem respaldo de pesquisa científica, e diz que as curas relatadas devem ser entendidas como atos de fé, sem relação necessária de causa e efeito.
Na prática, isso vira um teste simples. Anúncio com “pacote de cura”, promessa de resolver depressão em um fim de semana e foto de pôr do sol com preço em destaque é sinal vermelho, não convite.
Promessa de cura em três noites? Nem xarope de avó promete tanto, e a avó pelo menos não cobra em seis vezes.
2. Existe triagem antes, e ela é para valer
Grupo sério quer saber quem você é antes de servir qualquer coisa. O princípio 8 da resolução manda cada entidade entrevistar os interessados para evitar que o chá seja dado a pessoas com histórico de transtornos mentais ou sob efeito de álcool ou outras substâncias psicoativas.
O relatório anexo vai além. Recomenda uma entrevista prévia, oral ou escrita, para averiguar as condições do interessado e dar a ele os esclarecimentos sobre os efeitos da bebida.
Então desconfie de inscrição feita só com nome, CPF e comprovante de pagamento. Questionário de saúde é chato como bula de remédio e, como a bula, existe por um motivo.
Responda com honestidade, mesmo o que dá vergonha. Omitir diagnóstico, remédio ou uso de outra substância não deixa você mais preparado; só deixa quem conduz mais cego.
A terapeuta integrativa Marinice Vieira, de Alto Paraíso de Goiás, na Chapada dos Veadeiros, fala do cuidado com quem chega por outro ângulo, o da escolha do profissional. Segundo o portal Visit Veadeiros, ela preside a Associação de Terapeutas da Chapada dos Veadeiros (ATV).
“Escolher um terapeuta é como escolher um médico: pergunte a trajetória, as referências e como ele trabalha.”
Marinice Vieira, terapeuta holística
A pergunta vale em dobro para quem vai conduzir uma cerimônia. Trajetória, referências e método não são curiosidade; são o mínimo.
3. Seus remédios e seu histórico entram na conta
Este é o item que mais pesa. O chá contém alcaloides harmala, que inibem a enzima monoamina oxidase (MAO), e essa ação se soma à de outros medicamentos.
Em 1998, J. C. Callaway e C. S. Grob publicaram no Journal of Psychoactive Drugs um alerta sobre a combinação de preparações de ayahuasca com antidepressivos inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS). Segundo os autores, ela pode induzir uma síndrome serotoninérgica com desfecho potencialmente grave.
Os ISRS estão entre os antidepressivos mais receitados. Os antidepressivos inibidores da MAO (IMAO) agem pelo mesmo mecanismo do chá, e a combinação também precisa passar pelo médico.
A regra aqui não tem exceção. Nunca suspenda um remédio por conta própria para participar de cerimônia; quem decide ajuste de medicação é o médico que acompanha você, com tempo e acompanhamento.
O histórico psiquiátrico também conta. Uma revisão sistemática de R. G. dos Santos, J. C. Bouso e J. E. C. Hallak, com pesquisadores da USP de Ribeirão Preto, publicada em 2017 na Therapeutic Advances in Psychopharmacology, encontrou episódios psicóticos raros associados ao chá.
A mesma revisão concluiu que a triagem psiquiátrica prévia reduz bastante o risco. E recomendou que pessoas com histórico pessoal ou familiar de doença psicótica ou de mania evitem alucinógenos.
Se você está em tratamento para depressão, vale ler também o que ninguém explica direito sobre depressão. Nenhuma cerimônia substitui esse acompanhamento.
4. Quem conduz sabe o que faz, e fica até o fim
O relatório do CONAD descreve o que espera de quem conduz. O uso responsável pressupõe pessoas experientes, capazes de preparar a bebida, reconhecer o momento de servi-la e discernir a quem não se recomenda o uso.
O documento também recomenda que a entidade acompanhe os participantes até o fim do ritual. Pergunte quantas pessoas cuidam do grupo, quem responde por intercorrências e qual é o hospital ou pronto-socorro mais próximo.
Resposta vaga para pergunta de segurança já é uma resposta. “Relaxa, vai dar tudo certo” é ótimo para festa de aniversário, péssimo para plano de emergência.
Nessa hora, ajuda conversar com quem trabalha com cuidado na região. A terapeuta da Chapada lembra que nenhuma prática dela ocupa o lugar da saúde convencional.

“Meu trabalho não substitui médico, psicólogo ou psiquiatra. Ele caminha junto com eles, cuidando de uma parte sutil que pede um olhar mais profundo — a ponto de esses mesmos profissionais me indicarem para ajudar a encontrar o fio da meada.”
Marinice Vieira, terapeuta integrativa
Vale para qualquer prática fora do consultório. Ela pode caminhar junto, mas não no lugar do tratamento.
“Terapia holística séria tem ética, preparo e responsabilidade. É isso que a Associação defende há quase 19 anos.”
Marinice Vieira, terapeuta holística
5. Tudo é explicado antes, e você pode desistir
Transparência começa antes da inscrição. O princípio 9 da resolução recomenda manter ficha cadastral e informar o participante sobre os princípios do ritual, os horários e as normas.
Isso inclui a necessidade de ficar no local até o término do ritual e dos efeitos do chá. Saber disso antes faz parte da decisão: não dá para combinar “volto dirigindo às dez”.
Peça por escrito como funcionam as contribuições, o que acontece se você desistir e quem é o responsável pela entidade. Grupo que fica bravo com pergunta já respondeu à pergunta principal.
E guarde a regra mais importante. Antes de beber, a decisão é sua até o último minuto, sem multa moral, sem pressão do grupo e sem discurso de que “a medicina chamou”.
Se a ideia é desacelerar, há caminhos que não envolvem chá nenhum. O papel do silêncio na cura espiritual é um bom começo de leitura.
Checklist rápido antes de dizer sim
| O que checar | Sinal verde | Sinal vermelho |
|---|---|---|
| Natureza do grupo | Uso religioso, entidade identificada e responsável conhecido | Pacote turístico, preço em destaque e promessa de cura |
| Triagem | Entrevista prévia sobre saúde, remédios e histórico | Inscrição só com pagamento |
| Remédios | Pedido para você consultar o seu médico | Orientação para parar remédio por conta própria |
| Condução | Pessoas experientes do início ao fim e plano para intercorrências | “Relaxa, vai dar tudo certo” |
| Transparência | Regras, horários e contribuições explicados antes | Respostas vagas e pressão para decidir rápido |
Se algum item ficou vermelho, a melhor decisão é não ir. Sintomas físicos ou emocionais pedem um profissional de saúde; em crise, ligue 188 (CVV) ou, em emergência, 192 (Samu).
Perguntas frequentes
Retiro de ayahuasca é legal no Brasil?
O uso religioso é reconhecido pela Resolução CONAD nº 1/2010, publicada no Diário Oficial da União de 26/01/2010, que restringe o uso a rituais religiosos e veda a comercialização, ressalvadas as contribuições para manter a entidade. A mesma resolução recomenda evitar propaganda e pacotes turísticos associados aos efeitos do chá.
Quem toma antidepressivo pode tomar ayahuasca?
Quem decide é o médico que acompanha você, não o grupo: o chá contém alcaloides que inibem a MAO, e a combinação com antidepressivos ISRS pode causar síndrome serotoninérgica, segundo artigo de Callaway e Grob publicado em 1998. Nunca suspenda um remédio por conta própria para participar de cerimônia.
Ayahuasca cura depressão ou vício?
Não trate o chá como tratamento: a Resolução CONAD nº 1/2010 classifica como uso inadequado a atividade terapêutica sem respaldo de pesquisa científica e recomenda evitar propaganda de propriedades curativas. Depressão, dependência e outros quadros pedem acompanhamento de médico, psicólogo ou psiquiatra.
Posso desistir depois de me inscrever?
Pode e deve, se algo não fechar: antes de beber, a decisão é sua até o último minuto. Pergunte antes como funcionam a saída durante o ritual e a devolução de qualquer contribuição, porque a resolução recomenda informar o participante de que ele precisa permanecer no local até o fim dos efeitos.
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